17/07/2013

Seios









Seios

Sei os teus seios.
Sei-os de cor.
Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios. 
Vitoriosos já, 
Mas não ainda triunfais. 
Quem comparou os seios que são teus 
(Banal imagem) a colinas! 
Com donaire avançam os teus seios, 
Ó minha embarcação! 
Por que não há 
Padarias que em vez de pão nos dêem seios 
Logo p´la manhã? 
Quantas vezes 
Interrogaste, ao espelho, os seios? 
Tão tolos os teus seios! Toda a noite 
Com inveja um do outro, toda a santa 
Noite! 
Quantos seios ficaram por amar? 
Seios pasmados, seios lorpas, seios 
Como barrigas de glutões! 
Seios decrépitos e no entanto belos 
Como o que já viveu e fez viver! 
Seios inacessíveis e tão altos 
Como um orgulho que há-de rebentar 
Em desesperadas, quarentonas lágrimas... 
Seios fortes como os da Liberdade 
- Delacroix - guiando o povo. 
Seios que vão à escola p´ra de lá saírem 
Direitinhos p´ra casa... 
Seios que deram o bom leite da vida 
A vorazes folhos alheios! 
Diz-se rijo dum seio que, vencido, 
Acaba por vencer... 
O amor excessivo dum poeta: 
«E hei-de mandar fazer um almanaque 
Na pele encadernado do teu seio!» (Gomes Leal) 
Retirar-me para uns seios que me esperam 
Há tantos anos, fielmente, na província! 
Arrulho de pequenos seios 
No peitoril de uma janela 
Aberta sobre a vida. 
Botas, botifarras 
Pisando tudo, até os seios 
Em que o amor se exalta e robustece! 
Seios adivinhados, entrevistos, 
Jamais possuídos, sempre desejados! 
«Oculta, pois, oculta esses objectos, 
Altares onde fazem sacrifícios 
Quantos os vêem com olhos indiscretos» (Abade de Jazente) 
Raparigas dos limões a oferecerem 
Fruta mais atrevida: inesperados seios... 
Uma roda de velhos seios despeitados, 
Rabujando, 
A pretexto de chá... 
Engolfo-me num seio até perder 
Memória de quem sou... 
Quantos seios devorou a guerra, quantos, 
Depressa ou devagar, roubou à vida, 
À alegria, ao amor e às gulosas 
Bocas dos miúdos! 
Pouso a cabeça no teu seio 
E nenhum desejo me estremece a carne 
Vejo os teus seios, absortos 
Sobre um pequeno ser. 


Alexandre O'Neill 














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